quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

ASFALTO ESBURACADOS: EVITAR É MELHOR DO QUE TAPAR

Selamento preventivo de microfissuras das vias é mais viável que as operações "tapa-buraco".

A maior parte das administrações municipais enfrenta graves problemas com o insistente esburacamento das vias públicas. O fenômeno também deteriora grande parte das rodovias brasileiras, com consequências sociais e econômicas, além da real e permanente ameaça a veículos, cargas e, mais desgraçadamente, vidas humanas.

Na maior parte das vezes esse problema é enfrentado com as conhecidas "operações tapa-buraco" (OTBs), a ponto de constarem como uma das mais comuns reivindicações da população. Porém, as OTBs são ações corretivas, altamente dispendiosas e de difícil fiscalização. Por todo um longo tempo de degradação evolutiva do pavimento, os usuários da via são inexoravelmente vítimas do problema, além do que, por decorrência, consagra-se o enorme desgaste da imagem da administração pública.
Entretanto, seria perfeitamente possível aumentar substancialmente a vida útil dos pavimentos e reduzir drasticamente a formação de buracos nos pavimentos asfálticos caso fosse adotada uma virtuosa lógica preventiva, da qual decorreria um outro tipo de operação, a Operação Evita Buraco (OEB).
Importante, nessa abordagem, um bom entendimento do que poderíamos chamar a "patologia" do buraco: são vários os tipos e origens dos buracos, porém, perto de 90% dos buracos da pavimentação asfáltica urbana (e também da rodoviária) têm início em um microfissuramento na capa de revestimento asfáltico. Esse microfissuramento tem várias causas, e que seriam evitadas em sua maioria, sem dúvida, com um melhor projeto e uma melhor execução do pavimento. No entanto, uma nova pavimentação, completa e generalizada, seria alternativa financeiramente inviável, portanto, há que se cuidar dos pavimentos existentes.

"Patologia" do buraco. Sequência evolutiva (CLIQUE P/ AMPLIAR)
A água de chuva penetra através da área microfissurada e a passagem de veículos sobre essa área desenvolve pressões hidráulicas altíssimas no interior da capa asfáltica e na base do pavimento. Com o tempo, esse fato acaba por aumentar a dimensão das fissuras e desagregar localmente essa capa, deixando progressivamente soltos os fragmentos componentes do pavimento. Em dias de chuva, essa região já totalmente desagregada enche-se de água, e sob a passagem dos pneus, essa água é expulsa para fora carregando hidraulicamente consigo os fragmentos do asfalto e seus componentes. Resumidamente, esse é o diagnóstico causal da formação e evolução de nossos conhecidos buracos ou crateras. 
Desse entendimento, conclui-se que um selamento preventivo das microfissuras, logo ao seu aparecimento, impediria a progressão do fenômeno. O problema seria, assim, drasticamente minimizado. Isso poderia ser viabilizado através da adoção de uma OEB, de caráter preventivo. Trata-se da adoção de uma metodologia apoiada na figura dos "conserveiros" (terminologia de nossas antigas estradas rurais). Seriam duplas de funcionários circulando diariamente com um pequeno conjunto, manual ou motorizado, de equipamentos e materiais (talvez a melhor terminologia para essas duplas fosse "patrulhas de conservação"), que ficariam responsáveis pela permanente conservação de uma certa quilometragem fixa de ruas ou estradas. Há situações muito diversas, mas pode-se adotar como ordem de grandeza uma extensão de 20 km de ruas por patrulha de conservação.
A patrulha de conservação teria como missão tratar (selar) os locais com microfissuramento, trincas e pequenos buracos, impedindo a sequência de sua evolução. Hoje, há produtos asfálticos e poliméricos novos muito eficazes para esse tipo de uso. Com isso, a vida útil dos pavimentos seria ampliada por mais alguns anos, com enorme economia para o poder público e benefício para os cidadãos. Em situações mais exigentes, a "patrulha de conservação" mobilizaria uma central mais equipada para as correções necessárias. Ou para a correção de buracos associados a outras causas, como por exemplo, os característicos afundamentos provocados por erosão interna de materiais terrosos do subleito em caso de rompimentos de redes de água, esgoto ou drenagem pluvial.

Por: Álvaro Rodrigues dos Santos 
 Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT  e Ex-Diretor da Divisão de Geologia do IPT
 Criador da técnica Cal-Jet de proteção de solos contra a erosão

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